Toda profissão tem seus tabus. No jornalismo, um dos tabus é a divulgação de notícias de suicídio. Existe, entre os profissionais da área, uma crença de que a divulgação de casos de suicídio serviria como estímulo para que pessoas que estão em depressão façam o mesmo, tirando a própria vida. Com base nessa ideia é que somente são noticiados os suicídios de pessoas famosas, como o do ator americano Robin Willians, apenas para citar um caso recente de grande repercussão envolvendo celebridades.

Uma das primeiras associações conhecidas entre os meios de comunicação de massa e o suicídio remonta ao ano de 1774, quando o escritor alemão Goethe publicou “Os Sofrimentos do Jovem Werther”. Na novela, o herói se mata com um tiro após um caso de amor mal sucedido. Logo após a publicação, começaram a surgir na Europa vários relatos de jovens que cometeram suicídio usando o mesmo método por ele descrito.

Em 1982, estudo realizado pelo pesquisador americano Phillips DP e publicado pelo “American Journal of Sociology” apontou que os casos de suicídio descritos pela televisão geram um efeito em cascata que pode durar até cerca de dez dias após sua veiculação.

Estes dois exemplos foram citados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em publicação sobre suicídio destinada exclusivamente aos jornalistas. Porém, diferentemente da prática adotada pela imprensa brasileira hoje, a OMS não é a favor de que se deixe de noticiar os casos de pessoas que tiram a própria vida. A OMS entende que suicídio é um problema de saúde pública. Por isso, defende que o assunto seja noticiado, porém, com base em determinados princípios.

A OMS defende, por exemplo, referir-se ao fato como “suicídio consumado”, não como suicídio “bem sucedido”. Defende, também, que sejam apresentados somente dados relevantes e, nos jornais, que seja noticiado apenas nas páginas internas. No manual, a OMS recomenda que qualquer problema de saúde mental que a pessoa tiver seja trazido à tona e também que se evite exageros, como mostrar a cena do suicídio e o método utilizado.

Silêncio vem de seis décadas

Para o jornalista e apresentador da Rádio Itatiaia, Eduardo Costa, o silêncio da mídia sobre o assunto vem de aproximadamente 60 anos, quando alguns jornalistas fizeram um acordo informal de que não deviam divulgar casos de suicídio, acordo esse que vem sendo mantido. Porém, sua visão sobre o assunto mudou. “O tempo mostrou que não é isso [silêncio]. Hoje, a OMS recomenda que se fale a respeito e que falar é importante. Mas, falar com juízo”, pondera. O apresentador diz que é a favor da divulgação, mas como fato; não como estardalhaço.

O jornalista e apresentador da Rádio Super Notícia FM Rodrigo Freitas reconhece que o assunto sempre foi um tabu na mídia. E que há 12 anos, quando começou na profissão, a palavra “suicídio” era quase proibida nas redações. Porém, ele defende que como os dados sobre suicídio são alarmantes, é preciso falar sobre o tema, mas com cuidado. “A abordagem é que deve ser cuidadosa. Não se trata de se registrar todo e qualquer caso. Mas, sim, de se discutir o assunto numa perspectiva psiquiátrica e sociológica”, explica.

Para o jornalista Nilson Lage, professor titular aposentado do Departamento de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC),  informações sobre suicídio devem ser divulgadas, porém, com certo cuidado, de tal forma que não se tornem rotina. “Nas fases agudas, um personagem ou situação de suicídio com que o depressivo se identifique pode deflagrar o processo decisório”, explica.

Para o jornalista Nilson Lage, é preciso escrever sobre o problema social do suicídio (Uniceub/divulgação)

De acordo com Lage, “o exagero, a dramatização e o preenchimento da realidade com relações imaginárias ou supostas, causas, intenções ou culpas tornam esse tipo de noticiário, no geral, inadequado”, afirma. Para ele, o enfoque mais adequado é o que visa descrever o problema social que é o suicídio. Além disso, as reportagens deveriam mostrar as estatísticas e os aspectos culturais e clínicos relacionados ao tema.

É o que também defende a jornalista Adélia Fernandes, professora do curso de jornalismo do Uni-BH e especialista em direitos humanos. Para ela, mais importantes do que noticiar os casos em si é discutir o suicídio como um problema de saúde pública. “Noticiar os casos de forma sensacionalista não é legal e não traz benefício a ninguém. O suicídio é uma morte violenta e proposital; não um acidente”, explica.

Em sala de aula, Adélia afirma que os estudantes de comunicação são alertados a noticiar de maneira a tratar o caso com uma questão de saúde pública e sempre como uma forma de alerta. Para ela, campanhas de prevenção são muito importantes, porque mostram maneiras de se prevenir.

Essa é a linha de cobertura que vem sendo adotada pelo Bhaz. O portal não noticia casos isolados de suicídio, mas apenas aqueles que envolvem pessoas de maior visibilidade, cujas mortes são, naturalmente noticiadas. “Nesse caso, não há como não noticiar também a causa de sua morte”, explica o jornalista Marcelo Freitas, editor-geral do Bhaz. Porém, para ele, mais importante do que noticiar casos isolados, é não deixar de falar sobre o suicídio enquanto questão de saúde publica. “Como uma doença cuja incidência aumenta em determinada época, é preciso que as pessoas saibam que está acontecendo para que as autoridades sejam cobradas para a busca de soluções. Nesse processo, a informação é um componente muito importante”, afirma Marcelo Freitas.

Um problema cada vez mais crônico

O suicídio é um problema que, a cada dia, está se tornando mais presente na sociedade. De acordo com os últimos dados divulgados pela Organização Mundial de Saúde (OMS), o número de mortes causadas por suicídio aumentou 12% em quatro anos. No período entre 2011 e 2015, foram registrados 55.649 óbitos por suicídio no Brasil, com uma taxa geral de 5,5 por cem mil habitantes.

Segundo a OMS, a ideia é reduzir os casos em 10% até o ano de 2020. Mas, para que ocorra essa diminuição, é necessário agir de maneira rápida e em regiões que apresentam maior risco de incidência. Das regiões do País, a Sudeste, onde se concentra 42% da população, responde por 38% dos casos de suicídio registrados no país. Em seguida vem o Sul, com 23%, como mostra o Boletim Epidemiológico sobre o assunto divulgados na última quinta-feira (21).

Outra questão que preocupa o Ministério da Saúde é o aumento dos casos de suicídio entre jovens. Afinal, essa é a quarta causa de morte de brasileiros entre 15 a 29 anos. Uma possível causa para o aumento de tentativas de suicídio pode ser o interesse dos jovens por jogos como o baleia azul, por exemplo, como aconteceu alguns meses atrás, a depressão ou até mesmo a pressão em ambientes estudantis. Um exemplo, são os casos que ocorreram na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e que foram noticiados pelo Bhaz

Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG amanheceu pichada em maio (Reprodução/ Bhaz)

Mesmo com essa quantidade de casos e sendo o suicídio considerado pela OMS como uma questão de saúde pública, ainda há quem diga que não se precise falar sobre o tema abertamente. De acordo com a psicóloga e psicanalista Maraísa Abrahão, a divulgação pode ser feita, mas com cuidados. Ela diz que as informações não devem se restringir apenas ao fato em si, mas incluir dados e pesquisas, que, ainda assim, devem ser repassados de forma cautelosa. “Quando a pessoa não vê mais nenhuma saída, ela se sente incentivada pela ação do outro que acabou com a dor. O noticiar se torna sedutor para quem está sofrendo”, diz a psicanalista.

Ainda de acordo com a psicóloga, o ato de suicídio representa um momento de desamparo tão grande que a pessoa prefere tirar a própria vida a continuar sofrendo. Ela afirma que o auto-extermínio mostra um pouco do que a pessoa passava e do que ela sofria. “Quando a pessoa é dependente de medicamentos para tratar determinada enfermidade, ela toma um para tirar a dor, toma dois e não resolve. Aí ela toma uma grande quantidade para acabar de vez com a dor e a infelicidade que sente”, afirmou.

Para a psicóloga Lara Reis, quando se trata de suicídio, não é possível falar sobre um tema específico e sim sobre as questões que levam ao ato. “Quando pessoa pratica o auto-extermínio, ela não está querendo morrer; provavelmente ela quer acabar com uma dor que ela não consegue entender”. Ela, porém, não acredita que noticiar casos de suicídio possam levar pessoas que estão em estágios graves de depressão a tirar a própria vida. Lara afirma que quando a pessoa pratica o ato, ela faz uma escolha inconsciente, porque ainda está em um processo de decisão. “Eu não acredito que filmes ou novelas vão fazer isso com as pessoas. Elas já estão nesse processo há algum tempo”, afirma.

Setembro Amarelo

O Setembro Amarelo é uma campanha de conscientização e de prevenção ao suicídio. A ideia é alertar as pessoas a respeito da realidade do suicídio no Brasil e das formas de prevenção. Iniciado no Brasil pelo Centro de Valorização da Vida (CVV)Conselho Federal de Medicina (CFM) Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), o Setembro Amarelo começou em 2015.

Em setembro monumentos são iluminados com a cor amarela (Reprodução/ Setembro Amarelo )

Em apoio ao Setembro Amarelo, vários monumentos e prédios públicos em todo o país são iluminados com esta cor. No mês de setembro, como forma de conscientização, são feitas ações de rua, como caminhadas, passeios ciclísticos, passeios de moto e abordagens em locais públicos em várias cidade do Brasil.

Em atividade há 55 anos o Centro de Valorização da Vida (CVV) é uma instituição que realiza, de forma voluntária e gratuita, o atendimento às pessoas que necessitam de apoio emocional. Além disso, a entidade oferece um serviço de prevenção ao suicídio para quem precisa conversar. E, o mais importante: tudo isso acontece de forma gratuita e sigilosa. 

Uma das voluntárias mais antigas da instituição, Ordália (cujo sobrenome não pode ser divulgado, por normas do CVV) presta tendimento há 21 anos e se diz recompensada pelo que faz. “É muito importante e gratificante. Para mim, não tem dinheiro que pague ajudar uma pessoa a salvar a própria vida”, relata.  Ela conta que somente em um dia dessa semana, em um plantão de quatro horas, ela atendeu sete pessoas que procuraram ajuda. “E foram pessoas que ligaram pela primeira vez. Porque tem gente que liga durante todo o período. Essas sete não, ligaram pela primeira vez”,  explicou.

O atendimento no CVV pode ser feito de diversas maneiras: chat, telefone, Skype, e-mail ou até mesmo presencialmente, em um dos postos da instituição que atendem em horário comercial. Pelo telefone, é só ligar para o número 141.